Sobreviver ao degelo da Gronelândia

Uma história de luta pela sobrevivência das comunidades inuits a norte do Círculo Polar Ártico

textos e fotos: Carla Mota

Regine nasceu em Upernavik, a 72º de latitude norte, uma cidade gronelandesa com pouco mais de mil habitantes, localizada numa pequena ilha no meio dos fiordes. Habituada a ver os fiordes congelar durante meses, no Inverno, e os icebergues a passar em frente da varanda de sua casa, no Verão, hoje lida com novos desafios. O pai já quase não sai para caçar nos fiordes congelados, não por carência de peixe, mas por escassez de gelo. A caça deu lugar à pesca e Regine viu o seu pai encostar o trenó, puxado por dezenas de cães do Ártico, e comprar um barco. Os cães, cerca de 20, são agora um fardo e torna-se cada vez mais difícil conseguir alimentá-los. O futuro do povo Inuit está cada vez mais divorciado do gelo. Foi com lágrimas nos olhos que Regine teve de deixar Upernavik para trás e partir em direção a Ilulissat, uma cidade a sul, à procura de novas oportunidades.

Quando os Vikings chegaram à Gronelândia era Verão, o mar estava livre de gelo e as embarcações entraram nos fiordes de águas azuis celestes ladeadas por vertentes cobertas de ervas verdejantes. Eric, o primeiro viking a chegar ali, chamou-lhe “Grønland”, “Greenland” em inglês, que significa terra verde, pois efetivamente era isso mesmo, uma terra verde onde no Verão a tundra se enchia de flores coloridas que ponteavam os prados até onde a vista alcançava. Uma Gronelândia diferente daquela que povoa o imaginário da maioria das pessoas. Porém uma Gronelândia real, autêntica, onde os primeiros colonos noruegueses assentaram e criaram povoados. As quintas agrícolas começam a proliferar e a agricultura, ainda que muito limitada, permitia alimentar os novos habitantes. No entanto, os vikings rapidamente perceberam que a agricultura não poderia satisfazer as suas necessidades básicas. A falta de luz solar no Inverno e a fraca intensidade da luz solar no Verão, não permitia o crescimento das espécies agrícolas, condenando ao nanismo a maioria das espécies. Há muito que os Inuits sabiam disto. Há séculos que a base da sua alimentação vinha do mar. Os Vikings adaptaram-se e as quintas passaram a produzir pastagens, especialmente plantas forrageiras, que alimentavam o gado ovino que foi introduzido na ilha. Com o aumento do contacto entre os povos, a alimentação dos Inuits foi-se diversificando mas a base continuou, e continua, a ser aquilo que vem do mar. Os Vikings permaneceram na Gronelândia, especialmente no sul, enquanto as condições naturais lhes permitiram sobreviver com aquilo que a terra e o mar lhes davam. Porém, uma pequena Idade do Gelo atingiu a Europa durante a Idade Média, e o clima da Gronelândia mudou, tornando-se mais frio e impossibilitando o cultivo de alimentos. A Gronelândia voltou a ficar para os Inuits, que já estavam adaptados a viver em temperaturas extremas e com recursos limitados. Continuaram a caçar raposas do Ártico e ocasionalmente ursos polares. Os ursos não se aventuram na parte ocidental da Gronelândia, onde as temperaturas são mais amenas devido à presença de uma corrente marítima com origem no Golfo do México. Os ursos são habitantes da parte oriental, praticamente despovoada e completamente inóspita, e só ocasionalmente chegam ao sul transportados em icebergues à deriva no Atlântico.

Encontrar um urso polar na Gronelândia era para os Inuits um dia de sorte. Significava carne para vários meses, peles muito quentes e altamente isolantes, e gordura disponível para utilizar como fonte de energia. Incrivelmente, ainda hoje é assim, especialmente nas comunidades mais pequenas. A Gronelândia pouco mudou. O que mudou foi o clima.

Regine, uma jovem mulher inuit, com rosto redondo e largo, ainda se lembra do dia em que foi pela primeira vez com o seu pai à caça. Era Inverno, o fiorde estava completamente gelado havia meses e o sol já não se via há semanas. Era necessário apanhar alimentos para os cães e para a família. De trenó, forrado com peles de foca, urso e ovelha, percorreram quilómetros sobre o gelo até alcançarem um local onde fizeram um buraco e lançaram uma cana para pescar. O vento parecia que lhes cortava a pele do rosto, a única exposta. Não havia barulho nenhum. Só o som do vento. Até os cães, esgotados, estavam deitados no gelo do fiorde, esperando o seu “troféu” antes de rumarem a casa. O peixe é, e sempre foi, a base da alimentação da população inuit. Halibute e cantarilho, fresco ou seco, alimentam as populações e os animais há séculos. É com uma lágrima no canto do olho que Regine recorda estes momentos. Tem consciência que são agora cada vez mais raros e que a probabilidade do seu pai levar um dia os seus filhos a pescar no trenó é muito reduzida. O gelo no Ártico está a diminuir de ano para ano, e Regine testemunha-o todos os Verões. A precipitação que ocorre no Inverno também é cada vez menor. A vida está a mudar no Ártico, e ao contrário que terá acontecido há décadas, hoje essas mudanças são percetíveis à escala de uma vida humana.

Há poucos anos eram mais os cães do que as pessoas nas povoações gronelandesas acima do Círculo Polar Ártico. Hoje já não é assim. Os cães que puxavam os trenós do Ártico são agora um fardo. Cada família gronelandesa tem em média cerca de 30 cães. Há alguns anos eram utilizados durante quatro meses por ano, entre Dezembro e Março, para percorrerem o mar gelado, em busca de caça e puxando trenós. Hoje, o mar já só congela algumas semanas por ano. Não chega a um mês. Não compensa alimentar os cães do Ártico, auxiliares seculares da população Inuit. Muitos estão a ser abandonados, soltos na tundra e deixados à sua sorte. Rapidamente se transformam em cães selvagens, que lutam por alimento e caçam raposas e pequenos roedores. A fome têm-nos tornado agressivos, rondando as povoações e tentando arranjar alimento nos lixos e nas habitações. As pessoas temem agora os animais.

De ano para ano as coisas mudam no Ártico. Há cada vez mais icebergues nos fiordes durante o Verão. Regine vive agora em Ilulissat, uma cidade que atrai cada vez mais população Inuit. É a “capital dos icebergues” e este título atrai turistas, e por conseguinte cria condições particularmente importantes para a fixação da população e para a criação de emprego. As estatísticas do turismo não mentem. Ilulissat recebe cada vez mais turistas e todos os anos surgem novos hotéis e alojamentos locais. No ano 2000, Ilulissat recebia pouco mais de 6 mil turistas/ano e, em 2017, atingiu um valor recorde de cerca de 28 mil turistas/ano, sendo que toda a Gronelândia ultrapassou os 120 mil turistas/ano, quando em 2000, esse valor não atingia 40 mil. Em dezasseis anos as coisas estão a mudar de forma exponencial e a população local deposita no turismo a sua esperança. Não é de estranhar. O Ilulissat kangerlusuaq foi classificado Património Mundial da UNESCO em 2004, e desde então os olhos internacionais viraram-se para o Ártico. Apesar da maioria dos turistas que visitam a Gronelândia ser gronelandês ou dinamarquês, há muito que os países nórdicos escolhem a ilha como local predileto. No entanto, há agora países novos, tais como Alemanha, França, Itália e Holanda que começam a figurar na lista e a fazer companhia aos clássicos Noruega, Suécia ou Islândia.

A chegada dos turistas é acompanhada pelos gigantescos icebergues que se acumulam no Ilulissat kangerlusuaq, o fiorde gelado de Ilulissat, um fiorde onde se acumulam os icebergues libertados pela frente do glaciar mais profícuo do mundo fora da Antártida. Todos os anos, no Verão, o glaciar descarrega no fiorde quantidades abismais de gelo, uma média de 20 mil toneladas por dia, enchendo o fiorde de icebergues à deriva ou atracados nos depósitos de fundo. A imagem idílica de uma vila em frente a um fiorde carregado de icebergues correu mundo e Ilulissat tornou-se o novo destino alternativo para os turistas mais exigentes. Os icebergues vão-se acumulando no fiorde e aí permanecem durante anos, presos a uma moreia submarina que reduz a profundidade do fiorde de 1500 para cerca de 250 metros, o que concede características ímpares para a preservação dos icebergues dentro do fiorde, impedindo que se desloquem para o Atlântico, pelo menos até reduzirem a sua de dimensão. Foi esta particularidade que atraiu Regine e outros Inuits das povoações próximas, criando emprego na área do turismo, restauração, hotelaria, comércio e serviços. Regine, assim como tantos outros, saiu da sua cidade para se fixar na grande cidade. Ilulissat, com apenas 4555 habitantes, é a terceira maior cidade da Gronelândia e uma das poucas que não perde população. Os icebergues ficam estacionados em frente da casa de Regine durante meses, por vezes anos, até derreterem para tamanhos suficientemente pequenos que permitam transpor a moreia. Montanhas de gelo, presas no fundo dos fiordes ficam aprisionadas em frente da cidade. A população já os conhece. Mas o glaciar de Ilulissat perde cada vez mais massa. O partir do gelo glaciar e a sua queda no fiorde, algo a que os cientistas chamam calving, é cada vez mais intenso e os icebergues já se amontoam no fiorde e quase não permitem ver a água. Os turistas adoram percorrer o trilho pedestre e perfeitamente sinalizado, permitindo acompanhar este fiorde gelado às portas de Ilulissat.

Regine, assim como a maioria da população vê no turismo uma saída para a falta de recursos ligados à pesca e à caça. No entanto, a maioria da população não sabe que aquilo que atrai os turistas a Ilulissat está a morrer. O fiorde gelado de Ilulissat é aquilo que os cientistas chamam de glaciar vivo, um glaciar que desagua no fiorde, alimentando-o com icebergues que vão caindo diretamente na água do mar. No entanto, a maioria dos glaciares da Gronelândia tem sofrido um forte retrocesso, e muitos já não desaguam no mar ou no fiorde. Quando isto acontece, os cientistas designam-nos por glaciares mortos, pois já não há a formação de icebergues mas apenas o degelo e a alimentação do fiorde em água proveniente da fusão do gelo. O Glaciar de Ilulissat tem sido monitorizado nos últimos anos e as últimas medições e imagens captadas mostram rocha na base da parte final do glaciar. Isto significa que o glaciar está “doente” e em processo de “morte”. Quando tal acontecer, os icebergues deixarão de preencher o fiorde gelado e, aquilo que a UNESCO classificou como Património Mundial, deixará de existir. A morte do glaciar poderá estar para breve, especialmente se a temperatura continuar a aumentar. As alterações climáticas do Ártico, que já afastaram os caçadores Inuits da caça, poderão também afastar os turistas da Gronelândia. O turismo, onde a maioria da população gronelandesa deposita a sua esperança, pode não ser uma opção duradoura e o cartão postal da cidade de Ilulissat poderá deixar de ter icebergues na sua paisagem.

Contudo o contacto com o turismo crescente tem levantado algum choque cultural entre a comunidade Inuit e os visitantes. Habituados a manter uma dieta Inuit à base de tudo o que vem do mar, tendo por base o peixe, salmão, gambas, baleia e foca, os “talhos- peixarias” exibem bifes de baleia e costeletas de foca na vitrina. Os pezinhos das focas deixam os turistas em estado de choque. Urso polar é raro ver à venda já que raramente chegam à costa ocidental da Gronelândia, mas boi-almiscarado é relativamente comum e, a par com a ovelha, rena e a baleia, são das poucas carnes autóctones. Os turistas estrangeiros não percebem que os produtos frescos não crescem nos solos permanentemente gelados da Gronelândia e que os legumes e frutas vêm dos EUA ou da Dinamarca, alcançando preços proibitivos devido ao transporte. Para manter os níveis de vitamina, proteína e gordura, os Inuits comem baleia e foca, algo que perturba os visitantes. No entanto, uma baleia caçada na Gronelândia permite alimentar várias comunidades durante meses e o governo gronelandês controla rigorosamente a captura destes mamíferos. A venda para restaurantes é criteriosamente controlada e é muito difícil encontrar estes pratos nas ementas.

O aumento dos icebergues no fiorde gelado de Ilulissat atrai cada vez mais turistas, que ficam deliciados, especialmente com o barulho constante provocado pelos desprendimentos do calving e pelo espetáculo maravilhoso da mãe natureza. Porém o verdadeiro problema não reside ali. O problema está mais a montante. Está nos mantos de gelo. A diminuição da precipitação tem provocado uma diminuição da massa do glaciar e há cada vez menos gelo para compensar a perda dos glaciares por calving. Para além da diminuição da precipitação, que provoca o desequilíbrio dos glaciares, as temperaturas registadas no Verão provocam fusão do manto de gelo e desaparecimento do gelo também por evaporação. Já há lagos de fusão sobre o manto degelo da Gronelândia, sinais evidentes de temperaturas pouco habituais a estas latitudes. O alarme já tocou para vários cientistas, mas foram as populações locais as primeiras a senti-lo.

O aumento das temperaturas do Ártico, especialmente no Verão, tem provocado um degelo crescente do permafrost, os solos permanentemente gelados característicos das elevadas latitudes. Por norma, as temperaturas de Verão conseguem descongelar apenas a camada superficial do solo, deixando por baixo um solo gelado. Este permafrost está congelado há milhares de anos e é aí que se encontram aprisionadas quantidades abismais de metano, um gás de efeito de estufa 21% mais potente do que o dióxido de carbono. A libertação do metano para a atmosfera é capaz de fazer reter o calor na troposfera, a primeira camada da atmosfera. O metano, uma vez libertado para a atmosfera, aumenta uma camada de gases de estufa que impede a libertação do calor durante a noite mantendo-o na troposfera. Esta situação agrava-se de dia para dia, e o degelo do permafrost é cada vez mais evidente, descongelando todos os Verões uma espessura maior do solo. A libertação de milhares de toneladas de metano pode tornar o aquecimento da Terra num processo irreversível, já que se trata de um efeito em bola de neve. Quanto mais a terra aquece, mais metano liberta. E quanto mais metano liberta, mais a terra irá aquecer. Os cientistas estimam que, depois de um aumento médio da temperatura em 3 graus centígrados, o aquecimento será irreversível.

O delego do permafrost traz, no entanto, outros problemas com repercussões llocais e que preocupam, cada vez mais, os habitantes da Gronelândia. Regine não é uma excessão. Ossadas de população Inuit, enterradas há séculos no permafrost estão agora a descongelar. Muitos dos indivíduos morreram de doenças hoje praticamente erradicadas que podem voltar a matar, como o caso da varíola. Há várias décadas, a varíola matava dezenas de pessoas no Ártico mas hoje já nem o Pai de Regine se lembra do nome da última vítima. A fusão do permafrost está agora a libertar o vírus aprisionado, contaminando os solos e as águas e podendo provocar graves problemas de saúde pública. As populações temem cada vez mais esta nova realidade e os temas de conversa, no Verão, junto ao fiorde, testemunham estas preocupações.

O futuro do Ártico e da Gronelândia é cada vez mais incerto. Regine e a família sabem que muita coisa está a mudar. Ao mesmo tempo que a Gronelândia se torna “exótica” e até já há uma fábrica de cubos de gelo na cidade de Narsaq que abastece bares de luxo em Nova Iorque, os trabalhos criados pela indústria do turismo são muito sazonais e empregam especialmente jovens estudantes dinamarqueses que aproveitam para ganhar algum dinheiro nas férias escolares. Os Inuits olham para as mudanças no Ártico com um ar cético. Apesar do turismo, a Gronelândia tem visto a sua população diminuir nos últimos anos, especialmente através da emigração. A caça e a pesca seguem a mesma linha evolutiva. Até Nuuk, a capital, com cerca de 16 mil habitantes, tem perdido população. O futuro da maior ilha continental do mundo está cheio de incógnitas e incertezas. Porém Regine e a população Inuit estão habituadas a variações climáticas e até brincam com a vantagem de poderem ser abastecidos de barco com mais regularidade no Inverno. Os próximos anos serão decisivos para perceber a relação entre o clima e o turismo na Gronelândia. Até lá, o pai de Regine insistirá em olhar para o fiorde, esperando que ele gele para poder sair para caçar, e Regine continuará a sorrir enquanto se lembra dos seus tempos de criança.