Picos dos Balcãs

Uma jornada fronteiriça entre Albânia, Montenegro e Kosovo, percorrendo as florestas e os maciços montanhosos de granito das Montanhas Malditas.

Texto e fotos: Diogo Tavares

Em 2018, o líder Nomad Diogo Tavares explorou pela primeira vez a região das Montanhas Malditas. O ponto de partida para que, meses mais tarde, nascesse uma nova viagem de trekking da Nomad, numa das zonas mais inóspitas da Europa. Este é um relato na primeira pessoa dos primeiros passos dados pelos trilhos destas montanhas de aspeto lunar, por entre vales glaciares e a hospitalidade de pastores semi-nómadas em aldeias recônditas.

Dia 1
O Lago Koman nasceu nos anos 70, resultado da construção de duas barragens - uma perto da vila de Koman e outra perto de Fierzë. Estas estruturas provocaram o isolamento de aldeias e propriedades rurais que se estendiam através do vale. São 19 milhas de uma língua de água com escarpas vertiginosas que lembram os incríveis fiordes da Islândia. Quando chegamos a Valbonë, as Montanhas Malditas parecem quase lunares. Não é por acaso que os locais lhe deram este nome. Esqueletos de árvores, raízes a explodir da terra e formações rochosas de pedra clara atestam a violência das tempestades de inverno.

Dia 2
Dobërdol é uma aldeia encaixada num imenso vale glaciar de pastores semi-nómadas, que parece ter parado no tempo. Ali, é como se tivéssemos recuado 100 anos no tempo.

Já com Dobërdol nas costas, sobe-se a pique o vale que vai dar a um dos coles mais simbólicos desta jornada. São mais de 8 km a saltar , ora Albânia, ora Kosovo,  por uma linha imaginária a que chamam de fronteira. Tromeda, com os seus 2365 metros, está diante de nós. Uma subida até um cume forrado a verde, que nos leva ao ponto de fronteira triangular dos três países. 

Dia 3

Algures na fronteira entre a Albânia e o Kosovo, ainda se encontram vestígios da antiga Jugoslávia. Os pastores mais humildes não se podem dar ao luxo de alugar os prados relvados perto das aldeias, optando pelas paredes íngremes do alto das montanhas. Nesta 'terra de ninguém', cresce um alimento de luxo para as ovelhas - seria grátis, não fosse o enorme esforço necessário para lá chegar.

Dia 4

Mais uma conquista. Mais um colo. Uma paisagem que muda e um novo confronto com a micro dimensão que é a nossa existência perante estas montanhas.

Algumas horas depois, enquanto serpenteava por um caminho quase inexistente, dava por mim a confirmar quase ao minuto o percurso no GPS. Foi um dia longo, ensolarado, com uma brisa fresca vinda da montanha. Já tínhamos muitas subidas bem íngremes nas pernas, e sempre que entrávamos numa floresta quase parecia noite, de tão densa que era. Zig-zagging era o desporto que restava para aliviar o declive e, de repente, voilá!: Liqeni i Kucishtes, dois lagos a 2272 metros, perdidos num vale profundo, rodeado de floresta de pinheiro nórdico e vértices onde a neve teima em não desaparecer. Um dos melhores lugares, durante toda a jornada, para montar campo.

Dia 5
Durante várias décadas, as Montanhas Malditas , as áreas montanhosas que cruzam a Albânia, Montenegro e o Kosovo,  foram fechadas para o exterior devido a uma combinação de políticas de conflito e isolacionistas. Felizmente, esse tempo já vai longe, e agora é possível caminhar pelas ancestrais terras de ninguém nos Picos dos Balcãs. Nas montanhas do Kosovo, é fácil sairmos do trilho e mergulharmos no terreno que não está delineado nas rotas.

Dia 6
Depois de vários dias pelas altas terras do Kosovo, onde os rios parecem feitos de pedras brancas a rolar continuamente pelo vale abaixo, voltamos às montanhas Albanesas, com Theth no horizonte.

O Parque Nacional de Theth é o coração dos Alpes albaneses e foi criado para proteger os vários ecossistemas, a biodiversidade e o património cultural e histórico da região. Ocupa uma área de 2630 hectares e está localizado a uma altura de 600 a 2570 metros acima do nível do mar.

Dia 7
O último dia de jornada é dedicado ao Vale de Thethi. Aldeia albanesa, localizada a norte do vale de Shala, entalada por inóspitas montanhas alpinas.

A cascata de Grunas (Ujëvara e Grunasit) é uma queda de água de 30 metros de altura no início do trilho, que corre ao longo do rio Lumi i Thethit. O Blue Eye é uma grande bacia de água com uma queda de água saliente, de um azul celeste que fere a vista, e uma água tão fria que até dói. É de uma beleza única. Esta maravilha da natureza é formada pela erosão da rocha provocado pela água que desce das montanhas. O Poço Preto tem cerca de 100 m² e à volta de 3 a 5 metros de profundidade. O Rio Negro é inteiramente formado a partir da neve derretida nos Alpes dos Balcãs. 

Mas aqui não somos recebidos apenas pela natureza. A hospitalidade das comunidades da montanha é um costume elementar e servir comida é essencial para bem acolher os viajantes. Numa culinária de origem rural, costeira e montanhosa, a carne e os vegetais são fundamentais à subsistência da região norte. 

Dia 8
Para sair do Vale de Trethi, temos que colecionar quase uma mão cheia de horas em caminhos sinuosos, com ladeiras a pique onde cabe um só carro, mas onde, por vezes (bem mais do que as que gostaria), passam dois. A nossa carrinha é uma Mercedes laranja 4x4 dos anos 80, conduzida por um local de Bogë, uma terra no meio de nenhures, não muito longe daqui. Quando se sobrevive a isto e se chega lá a cima, o cenário é sublime - os amigos que gostam de abanar a anca chamavam-lhe um figo.

Diogo Tavares

É na montanha que se sente peixe na água. Não perde a oportunidade de se lançar ao desconhecido mundo vadio que é a Natureza. É o desafio da jornada que o move. E a recompensa? Encontra-a nas coisas simples como dormir sob as estrelas ou o prazer de assar um chouriço numa fogueira.

É entusiasta por vocação, ávido de aventura e irremediavelmente curioso; desafio é o seu nome do meio e a diversidade está-lhe no ADN. No que toca a atividades outdoors, experimenta de tudo e não se considera especialista em nada. É surfista de ocasião e ultra trail-runner latente. Trekking, backpacking, bikepacking, kayak ou tubing fazem também parte do seu repertório de experiências.

Apaixonado pela fotografia e pelo vídeo, tenta captar aquilo que o faz vibrar. Faz-se acompanhar, sempre que possível, dos seus parceiros de aventura favoritos: André, o filho, e Coi, o cão. É co-fundador da plataforma Bons Selvagens, uma organização que promove a utilização responsável dos espaços verdes e a preservação das paisagens naturais do nosso país.