La Chocolateria de El Chalten: Estórias à mesa

Na mais célebre confeitaria de El Chalten, Eduardo Madeira absorve a atmosfera de um lugar que simboliza a paixão pela Patagónia. A sua e a de todos os que por ali passam.

São três da tarde. Amanhã parto para mais uma semana de trekking num dos meus lugares favoritos do planeta, o Parque Nacional Los Glaciares.

Lá fora, o gélido vento austral dança com as nuvens. Arrastando-as ora para leste, ora para oeste revelando as majestosas montanhas da Patagónia. Sentado, à mesa da La Chocolateria, contemplo pela janela o bailado, onde o Cerro Fitz Roy é protagonista. Ele, que será meu companheiro de jornada nos próximos dias.

“Eduardo, toma tu café. Se esfria”, desperta-me Anabel no seu sotaque azul-celeste. Conheci Anabel em 2014, na minha primeira visita à Patagónia. Como a maioria dos residentes de El Chalten, a paixão de Anabel pelas montanhas trouxe-a aqui. Na verdade, esta é uma história que se repete um pouco por toda a vila. El Chalten, apelidado como “el pueblo más joven de Argentina”, foi fundado em 1985, como base de apoio às expedições no PN Los Glaciares. Desde então, vários aficionados pelo mundo do outdoor mudaram-se para esta pacata povoação tornando-a o epicentro do alpinismo andino.

Apaixonada por culinária, Anabel gere uma modesta confeitaria numa das artérias menos movimentadas de El Chalten. “Es genial! Acá puedo conciliar dos amores: la naturaleza y la cocina”, contou-me numa das nossas animadas conversas. 

O letreiro à entrada não engana - La Chocolateria. Ao atravessar a porta de madeira, os aromas a chocolate e a café invadem os sentidos e transmitem uma calorosa sensação de conforto. Um olhar mais atento descobre antigos esquis pendurados no tecto, fotografias do “pueblo” queimadas pelo sol, posters autografados por alpinistas famosos, piolets da década de 70, recortes de jornais a noticiar feitos históricos nas montanhas argentinas. Num dos cantos, um enorme baú guarda revistas e álbuns fotográficos com imagens do staff nos cumes do parque.  

Quem entra, depressa percebe que o pequeno negócio de Anabel é muito mais que uma confeitaria especializada em chocolate. É um ponto de encontro para uma comunidade ávida por aventuras.

Nas últimas décadas, várias expedições históricas - como a dos americanos Tommy Cadwell e Alex Honold que completaram Travessia do Fitz Roy, em 2014 - começaram a ser desenhadas na grande mesa da La Chocolateria. "Conocí aquí a muchos amigos. Gente que año tras año regresa y se sienta en esta mesa. ¡Es una aventura!", revela orgulhosa Anabel.

"Aqui, todos partilham a mesma paixão por este pedaço de Terra, o mesmo amor pela Patagónia. É o sentimento de comunhão e comunidade que faz da La Chocolateria um lugar tão especial. "

Os segundos, os minutos, as horas, correm lentamente. Lá fora o bailado continua, agora em tonalidades alaranjadas, que anunciam o chegar da noite. Pela mesa já passou um casal nipónico que viaja há 3 meses de bicicleta pela Patagónia. Neste exato momento, quatro amigos britânicos, acabados de regressar do Campo de Gelo, celebram a sua conquista. Ao passo que, uma equipa hispano-chilena revela os seus planos para atacar alguns dos cumes do maciço do Cerro Torre. Ali sentados, com uma caneca de chocolate quente ou café nas mãos, contamos estórias de noites passadas ao relento, amanheceres gloriosos e peripécias hilariantes passadas no sul do mundo.

De repente, como que despertado de um sonho, entendo o orgulho de Anabel em toda a sua plenitude. Aqui, à volta da mesa da La Chocolateria, a nacionalidade, a cultura, o credo não dividem. A sede de aventura une todos os que entram pela pequena porta de madeira. Aqui, todos partilham a mesma paixão por este pedaço de Terra, o mesmo amor pela Patagónia. É o sentimento de comunhão e comunidade que faz da La Chocolateria um lugar tão especial.   

Levanto a caneca de café na direção de Anabel e sorrio. Afinal, há palavras que não têm de ser ditas para serem compreendidas quando estamos em casa.

Ficha Técnica

Texto Eduardo Madeira
Edição Marta Macedo