Inverno em Somiedo

A equipa de trekking da Nomad rumou a Norte para passar alguns dias na tranquilidade das Astúrias.

O Parque Natural de Somiedo é um dos últimos territórios selvagens da Península Ibérica. Picos nevados, lagos de altitude e bosques intermináveis são o refúgio perfeito para lobos, cabras, cervos e ursos. Escolhemos este pitoresco canto das Astúrias para reunir a nossa equipa de guias de trekking para uns dias de aventura, boa comida e companheirismo.

Depois de umas horas na estrada, chegámos a Valle del Lago, uma típica aldeia vaqueira, que encontrámos coberta por um manto branco e gelado. O bucólico cenário remetia para um imaginário de outros tempos, onde homem e natureza viviam em plena comunhão.

Apesar da beleza do lugar, as semanas de intensos nevões no “velho continente” e a meteorologia, que se previa instável, levaram-nos a reconsiderar os planos para os dias que se seguiam. Ao jantar, imersos em sidra, mapas, boletins meteorológicos e uma aconchegante favada asturiana - o prato assinatura da região - estudámos com afinco as várias rotas possíveis. O plano era simples: desenhar uma travessia desafiante, que nos permitisse desfrutar da diversidade natural de Somiedo.

Com as montanhas nevadas no horizonte e o equipamento espalhado pelo corredor do albergue, recebemos o amanhecer com a antecipação própria de quem se prepara para partir à aventura. Lá fora, o vento gélido e o espesso nevoeiro prometiam tornar o trekking ainda mais exigente. De mapa em riste, crampons na mochila e raquetes calçadas, partimos, entusiasmados, serra adentro.

Passo após passo - à medida que subíamos de cota - a visibilidade diminuia. Ao cabo de um par de horas, decifrar a localização de um cume ou de alguma referência de orientação, parecia impossível. Com esforço, fomos avançando montanha acima. Finalmente, chegámos ao famoso planalto de Saliencia: um imenso vazio abraçado por pontiagudas formações rochosas, um lugar hipnotizante onde os ventos não uivam e o silêncio se faz escutar. Vagarosamente, como quem aprecia um trago de uma colheita especial, atravessamos o deserto branco sem trocar uma palavra.

Acampamento montado, fogão aceso, gelo a fundir-se, quatro bocas famintas. A refeição na montanha nunca é um pitéu, mas o esforço físico da caminhada e o desconforto provocado pelo frio fizeram daquele modesto prato de cuscuz com pimentos verdes um aconchego impagável. Reconfortados pelo calor da comida e embalados pelo som do crepitar dos flocos de neve, adormecemos na esperança de que a tempestade desse tréguas.

Na manhã seguinte, fomos brindados por um céu azul celeste salpicado de inofensivas nuvens brancas. Um largo sorriso enchia o rosto de toda a equipa. A intempérie passara e as condições meteorológicas adivinhavam-se perfeitas para a concretização do nosso objetivo.

Nos dias seguintes, debaixo de um revigorante sol de inverno, prosseguimos sob uma camada de neve que estalava audivelmente a cada passo. À medida que avançávamos, as referências que antes eram apenas pontos num mapa passaram a materializar-se diante dos nossos olhos: Peña Orniz, Lago del Valle, Piedra Furada, Picos Blancos, Cabanas de Souza…

Ainda alimentados pela adrenalina da superação, regressámos à aldeia de Valle del Lago. Nacho - o nosso anfitrião - recebeu-nos com o calor de quem reencontra velhos amigos e deixou-se contagiar pelos relatos entusiasmados das nossas aventuras.

Na despedida, deixámos Somiedo inspirados por vistas deslumbrantes, gigantescos rochedos de granito, vales intermináveis e robustos bosques. Perplexos com a beleza e diversidade deste pequeno reduto asturiano. E, acima de tudo, realizados por - mesmo que por breves instantes - termos tocado a evasão.

Ficha técnica

Texto Eduardo Madeira
Fotografia Tiago Costa
Edição Marta Macedo

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