No limiar do Mundo

a vida no ártico

Desde a primeira vez que visitei a Gronelândia, que este território me fascina. Um mundo esquecido, enigmático, vasto. Nos últimos anos tenho regressado, movido pela curiosidade de melhor compreender como é viver no limiar do mundo. Agora, com -20º graus e ventos de 160km/h lá fora, as paredes da nossa casa de madeira abanam violentamente e eu questiono-me como é que este povo não só sobreviveu, mas prosperou nesta terra.

Na minha primeira visita apercebi-me que não tinha as competências necessárias para percorrer este território. Aprendi a navegar, a ler cartas de gelo marinho, a defender-me de ursos polares. Voltei. E voltei de novo. Sinto que estou pronto para a última etapa. Viver com caçadores Inuites, no inverno. Mas primeiro tenho de conseguir sair de Reiquiavique. Há dias que estou sentado no meu quarto de hotel, na periferia da cidade, à espera das condições necessárias para que o pequeno turbo-hélice e o helicóptero me consigam levar daqui até Tasiilaq.

Aqui vivem os Inuit, descendentes dos Thule, um povo que atravessou o Ártico vindo do Canadá por volta do século XIII. Foram descendo a costa oeste e subindo a leste, razão pela qual escolhi esta costa para aprofundar a minha relação com este território. É o último reduto onde o quotidiano e a cultura Inuit se mantêm relativamente intactos

O helicóptero sobrevoa o mar gelado, nos fiordes consigo distinguir algumas marcas deixadas pelos trenós de cães. É uma paisagem de uma beleza quase irreal, uma realidade cristalizada. Mas aqui tudo tem causa e efeito. E não consigo deixar de pensar que vou ter de lidar com este mesmo gelo quando o verão o libertar e transformar os fiordes num labirinto que terei de navegar. A natureza não é um conceito abstracto, cada vez mais diluído pela civilização. É ela que dita as regras. É ela que nos permite sobreviver.

No inverno, o helicóptero que me trouxe é a única ligação ao mundo exterior e quando o tempo fecha, essa ligação desaparece durante dias. Por isso a comida para os meses de inverno é armazenada durante o verão, quando o barco de carga chega em Junho e deixa de conseguir navegar em Novembro. Engraçado como me lembra os Açores, mas com os desafios do Ártico. Por isso, a caça aqui é uma necessidade real. Podem passar dias no gelo ou no fiorde sem apanhar nada e regressar de mãos vazias. É uma vida de paciência, de leitura do ambiente, de dependência total do que o Ártico tem para dar. É com estes caçadores que vou passar os próximos dias.

Depois do helicóptero me deixar em Tasiilaq, preparo o equipamento no trenó para seguir de mota de neve até Tiilerilaaq, uma aldeia de caçadores, com 70 habitantes. É um dia inteiro, atravessando glaciares e fiordes congelados. Ainda não cheguei ao meu destino e parece que já percorri meio mundo. O sentimento de isolamento apodera-se de mim.

Atravesso o fiorde Sermilik congelado, e à minha esquerda vislumbro a orla da calote polar. Ao longe, crianças correm na rua como se o Ártico fosse o lugar mais normal do mundo para crescer. Duas mulheres caminham devagar com baldes na mão em direcção ao ponto de água comunitário. Tiilerilaaq é um punhado de casas de madeira, muitas delas em mau estado e abandonadas.

Odisseia Inuit na Gronelândia

Com Tiago Costa
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