Sozinhos Entre Gigantes

um relato de Eduardo Madeira
com fotografia de António Luís Campos

O vento gélido, vindo do Tibete, sopra para sul. A cada passo escuto o quebrar dos cristais de gelo debaixo dos pés. A cada minuto o rosto parece gelar um milímetro mais. Tímidas, as estrelas continuam a pintar o céu. “Por pouco tempo” - é o mantra que interiorizo para combater os graus negativos que trespassam a pele e se instalam nos ossos, nos nervos. Pé ante pé, afasto-me cada vez mais da tea-house de Gokyo e embrenho-me na solidão.    

Conhecido pela comunidade da montanha como o 'teto do mundo', o Khumbu alberga as mais icónicas montanhas dos Himalaias - entre elas o todo-poderoso Monte Everest. Densas florestas de coníferas, quilómetros de pontes suspensas, aldeias sherpa, glaciares ancestrais, manadas de iaques, stupas budistas e, claro, alguns dos mais belos cumes do planeta. Razões de sobra para que, todas as temporadas, centenas de peregrinos apaixonados pelo universo do outdoor sejam impelidos para este território no nordeste do Nepal.

No entanto, o sobe e desce de forasteiros de mochila às costas e sherpas, sobrecarregados de mercadorias para alimentar a indústria do turismo do Khumbu, é uma realidade relativamente recente. Antes da década de 50 do século passado, poucos se atreviam a explorar a região. Lendas e mitos sobre o impiedoso vale sagrado do povo Sherpa afugentaram até os mais destemidos exploradores da época. Porém, dois homens viriam a mudar para todo o sempre o destino deste lugar. A 29 de maio de 1953, Edmund Hillary, alpinista neozelandês ao serviço da coroa britânica, e Tenzing Norgay, alpinista sherpa, nascido no Tibete e criado em Tengboche, uma pequena aldeia no Khumbu, conquistavam pela primeira o cume do Monte Everest, a mais alta montanha do mundo, com 8848 metros. 

Desde então, o assédio pela região aumentou exponencialmente. A insistente ambição humana e a ânsia por atingir limites alteraram não só as dinâmicas do Khumbu, como também as de todo o Nepal, que encara a indústria do outdoor como a galinha dos ovos de ouro. 

Devoto da montanha e apaixonado por culturas distantes, o Khumbu há muito preenche o meu imaginário. Adiei a minha odisseia himalaia durante anos. Finalmente, em 2019, decidi que chegara a hora. Durante meses, devorei mapas e livros, estabeleci contactos locais e preparei-me fisicamente para a jornada. A mim juntou-se o António Luís Campos, também ele guia de trekking na Nomad e ávido fotógrafo.

São seis da manhã. Hoje é o dia! Se tudo correr bem faremos cume. 

Cedo percebemos que na região do Monte Evereste persistem bolsas de ar pouco trilhadas. À medida que arquitetávamos o nosso projeto um ponto no mapa iluminava-se: o vale de Gokyo. Principal via de acesso ao campo base do Cho Oyu, este vale é uma das zonas mais remotas da região do Khumbu. E a razão é simples: alcançar Gokyo e regressar ao ponto de partida implica, no mínimo, caminhar cerca de duas semanas. Após algumas trocas de emails com amigos nepaleses, decidimos que o coroar da nossa aventura himalaia seria a conquista do cume de Ngozumpa Tse - um 5000 no coração do vale de Gokyo. 

A 1 de outubro, a pequena avioneta da Tara Air aterrava no minúsculo aeroporto de Lukla. Alguns momentos depois, abençoado pela chuva nepalesa, atravessava o enorme pórtico budista de acesso ao mítico vale sagrado dos sherpas. Tradicionais rodas de oração, bandeiras budistas, o cheiro a incenso no ar. Tudo estava lá, como eu sempre imaginara. 

Embrenhado nas florestas do Khumbu, os meus sentidos devoravam todos os instantes — dos odores a terra molhada ao suave movimento das folhas outonais, do eco das águas do rio Dudh Kosi ao corre-corre de sherpas e trekkers, do silvar da chaleira no lume ao compasso ritmado de mulas e iaques domesticados. Fascinado, observei o sorriso cúmplice de crianças a lançar papagaios de papel e as rugas de sabedoria dos camponeses. Curioso, deleitei-me com os detalhes da arte nos templos budistas e com as iguarias tradicionais expostas nas montras das tea-houses locais.  

Como qualquer montanhista bem preparado, na semana seguinte mantivemo-nos fiéis ao nosso plano de aclimatação, cuja base para o sucesso está numa subida lenta e gradual. Cada dia é uma conquista. Neste complexo jogo de xadrez entre corpo e montanha, a nossa estratégia passava por diariamente ganhar altimetria. Por vezes, bastava caminhar cinco a seis horas até uma aldeia sherpa — momentos ideais para descobrir a riquíssima cultura local. Noutros dias, propositadamente, cruzámos o limite dos 4000 metros, para na mesma tarde regressar ao ponto de partida, num exercício de aclimatação que revelar-se-ia fundamental para o sucesso do nosso projeto. 

Esta estratégia de 'avança e recua' levou-nos a explorar alguns dos trilhos menos conhecidos do Khumbu. Entre eles, o campo base do Ama Dablam, a 4600 metros de altitude, o campo base do Island Peak, a 4970 metros ou toda a região de Chukung Ri, no alto dos seus 5500 metros de altitude. Lugares de solitude, lugares com estranhos nomes que depressa aprendemos a pronunciar e apreciar. 

Após 16 longos dias de caminho alcançávamos Gokyo. Nas  margens do maior lago de altitude do Khumbu, esta pequena aldeia nasceu devido ao crescente aumento de forasteiros, que nos finais da década de 70 exploravam os vales, os glaciares e as montanhas de Gokyo. Atentos, vários nepaleses começaram a erigir as tea-houses que hoje dão guarida a trekkers de todos as nacionalidades, transformando Gokyo numa verdadeira babilónia. 

O nosso plano sempre fora usar Gokyo como base para atacarmos o topo do Ngozumpa Tse. E, após tantos dias de mochila às costas, ver pela primeira vez Gokyo tinha um sabor especial. 

São seis da manhã. O despertador dá o sinal. Com um entusiasmo juvenil, salto do saco-cama. Hoje é o dia! Se tudo correr bem faremos cume antes que o sol atinja o seu ponto mais alto. 

O vento gélido, vindo do Tibete, sopra para sul. A cada passo escuto o quebrar dos cristais de gelo debaixo dos pés. A cada minuto o rosto parece gelar um milímetro mais. Tímidas, as estrelas continuam a pintar o céu. “Por pouco tempo” -  é o mantra que interiorizo para combater os graus negativos que trespassam a pele e se instalam nos ossos, nos nervos. Pé ante pé, afasto-me cada vez mais da tea-house de Gokyo e embrenho-me na solidão. Alguns metros atrás, no silêncio da madrugada, o António segue-me num ritmo lento, para registar a aurora nos Himalaias. Preguiçosa, a luz branca da manhã surge finalmente no alto das cumeadas. Sem esforço, os raios de sol descem do seu trono e avançam vale abaixo, descongelando vagarosamente o paisagem. 

A cada passo sinto-me a fugir do mundo. À minha frente, além de uma pequena manada de iaques, não há vivalma - apenas um oceano de montanhas anónimas. À medida que caminho, o terreno árido, polvilhado de pequenos tufos de verde, dá lugar a um deserto de areia negra e pedregulhos obelixianos. A oeste, o sopé de Gokyo Ri (5357 metros), um dos cumes mais acessíveis da região. A nordeste, as intransponíveis muralhas do glaciar Ngozumpa. A paisagem negra-lunar em tanto de assustador como de sereno e belo.

Acelero o passo. Quero respostas para este cenário dantesco. A cada passada larga, o pó fino levanta-se. É inevitável. Acelero. Subo e desço e contorno pequenas depressões. E, sem aviso prévio, sem um “estás preparado”, eis o majestoso Cho Oyu - a sexta montanha mais alta do planeta, a última fronteira entre o Nepal e o Tibete. Reza a lenda que ao cruzar o Cho Oyu (Deusa Esmeralda, em tibetano), os sherpas depararam-se com tamanha beleza que decidiram adotar a região do Khumbu como o seu novo lar. 

Revigorado pela dimensão esmagadora do Cho Oyu, paro e desfruto. O António junta-se a mim. Não é preciso falar. Ambos sabemos apreciar o privilégio que nos está a ser concedido. Avançamos. Cruzamos lagos verde-esmeralda e penetramos cada vez mais nas profundezas do vale de Gokyo. O calor já é palpável quando, finalmente, chegamos ao sopé da Ngozumpa Tse, aquela montanha que havíamos estudado e que seria o coroar da nossa jornada. 

Sento-me. Saco o cantil da mochila. Recupero o fôlego, antes de enfrentar o meu Adamastor de pedra. Focado, levanto-me e entrego-me à montanha. Ziguezagueando, traço rumo em direção ao cume. À medida que conquisto metros, sinto o ar rarefeito encher-me os pulmões. A rocha negra afiada dificulta a progressão. Avanço devagar. Cada metro é uma batalha ganha, mas o objetivo final continua distante. Por instantes desligo. Caminho em piloto automático. O pensamento está longínqu,o ao ponto de deixar de sentir os quilos da mochila nas pernas. Caminho mas não estou aqui. Caminho.

Desperto com o som do rolar do cascalho. Trepamos este monstro de pedra há quase três horas, quando vislumbramos o cume a poucas centenas de metros. Desatamos a saltar. É impossível conter o êxtase. Poucos minutos depois, conquistamos o topo do Ngozumpa Tse. O cenário é de cortar a respiração. Um anfiteatro natural, com as mais lendárias montanhas do planeta: Monte Everest, Nuptse, Lhotse, Makalu, Cholatse, Cho Oyu. 

Após vários meses de estudo, semanas de preparação, dezenas de horas de caminho alcançamos o nosso objetivo. Sozinhos entre gigantes conquistamos o efémero sabor a liberdade, a felicidade.   

Eduardo Madeira

Montanhas longínquas, praias inóspitas, selvas remotas. É na simplicidade da natureza que encontra inspiração. É na sua imensidão que se encontra com o passado, sonha com o futuro e vive intensamente o presente.

O fascínio pelo desconhecido - muito em especial pela montanha - tem levado o Eduardo a lugares tão distantes como a cordilheira de Karakoram, no Paquistão, os Himalaias nepaleses, os grandes maciços da Patagónia ou aos vales alpinos das Tien Shan, no Quirguistão.

Aos seis anos, começa a publicar um jornal mensal na escola primária. Mais tarde, cumpre o seu desígnio de menino e torna-se jornalista. Mas por pouco tempo. A sede de aventura leva-o a despedir-se do emprego, da família, dos amigos, do país. Durante um ano, percorre a América Latina de norte a sul, numa jornada que mudaria a sua forma de sentir o mundo.

Ávido por uma boa história, leva sempre consigo o seu fiel bloco de notas. Afinal, o sangue de repórter continua a correr-lhe nas veias. E é na reportagem de viagem que se sente verdadeiramente preenchido. Entre outras publicações, destaca-se o livro Sobre|Viver - Amazónia, que relata a realidade das comunidades ribeirinhas do rio Beni, um dos mais isolados da floresta amazónica.  

Atualmente, dedica-se a tempo inteiro à Nomad e ao universo da viagem e do outdoor.

António Luís Campos

Amante do trekking e da montanha, o António viveu nos Pirinéus, em Espanha e depois na Polónia, conhecendo a fundo a Europa Central. Cruza o mundo da reportagem fotojornalística com a profunda paixão pela fotografia de Natureza, que o levou em 2014 a atravessar a Amazónia por via fluvial.

É por Coimbra, em 1977, que nasce. Uns 20 anos mais tarde, resolve dar uso às máquinas fotográficas que havia por casa. Progressivamente a engenharia eletrotécnica, sempre ligada às energias renováveis, dá lugar à fotografia.

É há vários anos colaborador da National Geographic e desenvolve intensa atividade formativa em fotografia. Em 2006, integra a agência 4SEE Photographers e, no ano seguinte, é premiado no concurso Visão Fotojornalismo, publicando em diversos media de Portugal, Japão, Espanha, Alemanha, EUA, entre outros. É também autor de vários livros de fotografia e tem vindo a produzir exposições em Portugal, Espanha e Polónia.