Uma das missões da Nomad é apoiar a curiosidade e a inquietude, financiando projetos que contribuam para um melhor conhecimento do mundo em que vivemos. Em 2017, entregámos parte da Bolsa de Exploração Nomad ao jornalista Paulo Moura, com o propósito de financiar um projeto jornalístico sobre os últimos dias do Estado Islâmico. 

Para isso, o jornalista viajou até à Síria e ao Iraque. O verão estava no seu auge, e as batalhas com o Estado Islâmico também. Depois de concretizar a missão, quase impossível, de entrar em Mossul, aquilo que lá encontrou foi uma paisagem de guerra e destruição pontuada por vestígios de um quotidiano que já não tem referente. 

As noites longas, repletas de insónias, resultaram nos rascunhos que servem de base ao livro “Uma Casa em Mossul”, que chega às bancas em Maio.
O texto que se segue é um excerto desse livro.

A batalha de Al Zanjili

Nos nossos percursos de carro pelas ruas de Mossul, Walid põe música, usando uma pen de memória ou o smartphone, através de bluetooth. Ele e Khaled vão trocando os dispositivos, entre gargalhadas e acalorada discussão sobre as músicas. Competem sobre quem trouxe as melhores canções, cantam, aos berros, numa espécie de karaoke estridente e desafinado, agitam os braços no ar.

No banco de traz, eu observo o horizonte destruído, a cidade de cinza. Tal como as grandes obras nos podem emocionar, tal como ficamos esmagados pelo esplendor de certas construções, também a destruição impressiona. A sua grandeza faz-nos sentir muito pequenos.

Em alguns bairros, percebe-se que bombardeamentos foram feitos sobre bombardeamentos, que sucederam a bombardeamentos. É como se outra cidade tivesse nascido dos escombros, com uma topografia própria. Há ruas cortadas, encurtadas. Outras abertas por prédios que caíram. Passagens franqueadas por placas de betão que tombaram em forma de ponte. Tubos desenterrados, nós viários desatados, novas praças cavadas nas ruínas. Lentamente, a paisagem vai-se entranhando, desenhando um abismo dentro de nós também.

“Quem são estes cantores?”, perguntei, durante uma música de que eles conheciam a letra e que acompanhavam quase afinados.

“Não sei. Não é ninguém conhecido. Estão a dizer bem dos curdos. A dizer que não há nenhum desentendimento entre curdos e árabes”.

As vozes, uma masculina e outra feminina, tinham sido gravadas, editadas e publicadas no Youtube por um casal anónimo, usando provavelmente um telemóvel e um computador. Walid guardava o ficheiro na sua colecção de downloads.

Quase todas as músicas que ouvíamos tinham proveniência semelhante. Eram feitas e gravadas por gente anónima, para gente anónima. É a nova tendência nos ângulos mortos do mundo.

Desprezo total pela indústria discográfica, adeus star-system, adeus artistas. A música democratizou-se, todos cantam para todos. Em várias línguas, sobre temas locais. Por vezes, as letras parecem discursos políticos, ou discussões de assuntos correntes.

A canção seguinte era em turco, e falava de um amor interrompido pela guerra. Depois veio uma sobre Saddam Hussein. Khaled ia traduzindo. “Amo Saddam Hussein”, trinava o cantor. “Não me conformo com ele ter sido enforcaaaaado”. E continuava, numa narrativa cheia de pormenores factuais e trechos opinativos. “É uma canção muito triste e dramática”, explicou Khaled. E que, sem dúvida, expressava uma posição estritamente pessoal do autor. Mas, provavelmente por ser expressa em música, não suscitava reacção, excepto cantarolar em uníssono. 

Seguíamos em direção ao bairro de Al Zanjili, onde os combates haviam supostamente terminado poucos dias antes. Mas rebentou um tiroteio na rua, à nossa frente, tivemos de inverter a marcha, optar por outro caminho.

Chegámos à praça principal do bairro, talvez a zona mais espetacularmente destruída de Mossul. Um horizonte pulverizado, em perfeito silêncio. Silêncio que, no contraste com o dramatismo do cenário, desencadeou em mim uma súbita vertigem. Onde estão as pessoas?, apeteceu-me gritar. Acabou a festa? Para onde foram todos? Tive a sensação, delirante, de que alguém tinha feito um disparate e se tinha escondido de vergonha.

Nos destroços de um edifício, numa esquina da grande rotunda, três homens andavam à procura de uma carteira. Pareceu-me uma tarefa vã, tresloucada. Era óbvio que não iriam conseguir encontrar uma carteira no meio de uma montanha de pedregulhos. Era mais provável encontrarem uma bomba por explodir, ou algum pedaço de cadáver. Ou mesmo um combatente do EI ainda vivo, escondido nalgum buraco.

“Ontem, as forças iraquianas estiveram aqui, e encontraram um tipo do Daesh”, disse o homem. “Devia ser um sniper, tinha-se escondido entre aquelas colunas. Enforcaram-no aqui. E deixaram o corpo”.

O corpo do enforcado estava de facto a poucos metros, de costas, embrulhado num novelo de papelada e pedaços de plástico e farrapos coloridos. Foi para ali atirado por alguém que não queria perder tempo, nem se preocupou com arrumar minimamente a “sepultura”.

O homem que procurava a carteira já inspecionou os detritos à volta do cadáver, verificou cada palmo daquele espaço caótico que, três dias antes, fora a sua casa. 

Quando fugiu, fê-lo tão depressa, que nem levou a carteira, com a documentação e uma considerável quantidade de dinheiro. Veio agora, com dois amigos, tentar recuperar alguma coisa do seu património. 

“Há semanas que duravam os bombardeamentos, eu fiquei sempre aqui. Muitos fugiram, logo no início, mas eu não queria abandonar a minha casa. Só saí quando os combatentes do Daesh se meteram cá dentro, para se refugiarem. Nessa altura, eu e a minha família fomos para casa de uns primos. A bomba caiu no mesmo dia. Teríamos morrido todos”.

Na paisagem disforme, esbranquiçada, viam-se, aqui e ali, uns vultos curvados, à procura de restos, como alpinistas perdidos numa tempestade de neve. Uns tentavam recuperar parte de um carro, outro chegou à sua loja, uma semana depois da bomba que a destruiu. “Isto era uma zona muito boa, muito segura”, disse ele. “Com muitas lojas, muitas oficinas. O negócio corria muito bem. Mesmo durante a guerra, continuávamos a trabalhar. Até que chegou o exército, bloqueou a área, e houve aqui uma batalha constante durante três meses. Apesar disso, continuámos cá até ao fim”.

Nas últimas semanas, o bairro foi um paiol a quem tivessem lançado um fósforo, ou uma orgia de fogo de artifício, é impossível imaginar. Ou de perceber quem combatia quem e com que objectivo. Uma chuva de mísseis caía dos aviões da coligação, enquanto cá em baixo o EI lançava carros-bomba em todas as direções como quem solta uma matilha. Tantos utilizou, que abriu uma fábrica de carros-bomba numa das esquinas da praça. Produzia dia e noite, em grande escala, veículos ligeiros ou camiões equipados com explosivos, os chamados VBIED (Vehicle-borne Improvised Explosive Device). Porque, a partir de certa altura, estes veículos, a par com o uso de snipers, esgotavam toda a táctica de guerra do EI. Al-Zanjili foi o mais terrível exemplo dessa visão militar.

Os homens que ia encontrando ajudavam-me a interpretar os vestígios. Por exemplo, um camião carbonizado era de facto um VBIED que desceu a avenida, ziguezagueando a grande velocidade em direcção a uma casa cujos dois andares abateram, como num terramoto. O dono da casa estava lá dentro, com a família, e sobreviveu, para contar. 

“Enfiámo-nos todos na cave. Eu, mulher e filhos, 13 pessoas. Durante meses, construí esta cave, como um bunker”. Shab Kudair, 30 anos, levou-me ao covil onde viveu duas semanas inteiras, com a família, enquanto o fim do mundo decorria sete palmos acima. Era um cubículo, custava a crer como cabiam ali 13 pessoas, mesmo encolhidas. “Trouxemos comida e água, ficámos aqui. Tudo tremia, as crianças choravam, mas aguentámos. Nenhum morreu”.

Quando puderam sair, a casa estava desfeita. Toda a cidade desaparecera à sua volta. Mas não vale a pena tentar explicar a Shab que correu um risco inútil, de nada valeu terem ficado no buraco, não salvaram coisa nenhuma. Falava como um homem vitorioso, nos meio dos despojos.

Naquela zona, a sobrevivência era sentida como uma espécie de vitória militar. Shab Kudair poderia ter fugido com a família meses antes. Depois, já não seria possível. O EI decidiu usar os milhares de civis da zona como escudos humanos, encurralando-os entre Al-Zanjili e a Cidade Velha. Snipers colocados em pontos estratégicos tinham a função de garantir que ninguém fugia.

Aterrorizadas, algumas centenas de pessoas encontraram refúgio no grande hospital, que fica ao fundo da avenida. Yasser Ohmaran, de 27 anos, foi uma dessas pessoas. Uma das poucas que escaparam com vida. 

“Fomo-nos juntando ali, cada vez mais gente. Ninguém podia sair, por causa dos snipers. Ficámos vários dias. As forças iraquianas entraram no bairro, os tiros e as bombas não paravam. Até que, uma noite, fizemos uma reunião, decidimos fugir todos juntos, de madrugada, quando os snipers estavam a dormir”.

Há vários relatos confirmando que assim foi. Aquelas pessoas organizaram-se e saíram todas, a meio da noite, numa fila interminável e silenciosa, com o objectivo de atingir a zona controlada pelas tropas iraquianas. Por azar, um sniper acordou e viu o que se passava. Alertou os outros, foi uma razia. Entre 300 a 400 pessoas, incluindo muitas crianças, terão morrido em poucos minutos, atingidas por tiros.

Yasser mostrou-me o local onde tudo aconteceu. E a pequena vala aberta no asfalto onde ele e outros cinco rapazes se conseguiram esconder. A zona onde caíram os corpos da vítimas ficou inacessível, porque várias paredes se abateram umas sobre as outras. Mas o cheiro a morte estava lá para contar toda a história. 

Nos últimos dias da batalha de Al Zanjili, os seres humanos parece que não tiveram nenhum papel, excepto morrer. A luta fez-se entre mísseis que caíam do céu e carros-bomba explodindo em terra. 

Contou quem assistiu que os carros-bomba eram às centenas, às voltas como ratazanas, fazendo-se explodir nas praças, capotando, em chamas, nas avenidas, chocando com os mísseis que voavam na sua direcção, num estoiro simultâneo, solidário, um abraço fatal.

Eu, Khaled e Walid seguimos atrás de um outro homem, que nos quis mostrar o interior de uma casa do EI. Tinha sido uma vivenda de luxo, mas estava agora tão arrasada como as outras. Percebia-se como tinha havido mármores e paredes forradas de damasco, arcos e colunas decoradas. Era a casa de uma das famílias mais ricas da zona, ocupada desde 2014 por um combatente do EI. Esse dirigente do novo poder, com a sua mulher e filhos, morreu, não se sabe se na explosão de uma bomba da coligação, ou de um camião carregado de petróleo que rebentou mesmo à sua porta.

“Eram estrangeiros”, disse o nosso guia. “Eram russos”. Mas percebe-se que ele não tem qualquer certeza quanto a isso. Em todo o lado me dizem que os combatentes do ISIS são estrangeiros, como forma de deixar claro que são gente de fora, diferente e desconhecida.

Na intersecção de vários quarteirões, num intervalo entre massas de cascalho, havia uma espécie de aterro esventrado, mole e fedorento. Passámos por cima daquele mar de farrapos, restos de comida, tachos e panelas, brinquedos, latas, papéis, garrafas, almofadas, roupa, sapatos, dois colchões, objectos íntimos, sem que ninguém explicasse de onde vinham, sequer mencionasse a amálgama quase viva onde distraidamente enterrávamos os pés. 

“São as coisas do Estado Islâmico”, disse Shab, com evidente relutância em falar do assunto, quando eu insisti em saber. “Os antigos donos das casas que foram ocupadas pelos combatentes do EI voltaram agora e expulsaram do interior todos os objectos dos ocupantes. Não queriam lá este lixo”. 

Fizeram-no não decerto para ganhar espaço nas casas, que estavam  irremediavelmente destruídas. Fizeram-no porque estes objectos, cujos donos estão mortos, são ainda motivo de ódio e vingança.

E é verdade que havia neles algo de monstruoso, de tão inofensivos, banais, humanos. Perante aquele cheiro de roupa suja e comida podre, era difícil conter a náusea e o vómito.

Até perante aquele sapato de criança, perdido entre vidros partidos,  pedras, pedaços de matéria carbonizada. Era um sapato pequenino, de seda branca e camurça, com fivela, um laçarote, e botões de pérola. Pela posição, o local onde se encontrava, não havia dúvidas de pertencer ao inimigo do mundo civilizado. Parecia suspenso e impoluto, apesar de estar sujo e ter pedras dentro, o sapato da menina que vivia numa daquelas casas ricas do EI.

A menina a quem o mundo apontou os canhões, as metralhadoras, os mísseis, e sobre quem caíram milhares de toneladas de bombas. A menina do Estado Islâmico, que todos queriam matar.

Paulo Moura

Paulo Moura é professor de Jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social, em Lisboa, e autor de sete livros, entre os quais a biografia de Otelo Saraiva de Carvalho e Passaporte para o Céu, um relato sobre a imigração ilegal de africanos para a Europa. 

Paulo Moura foi, durante 23 anos, jornalista do Público. Esteve como correspondente permanente nos Estados Unidos, Canadá e México. Entre 1999 e 2000 assumiu o cargo de editor da revista Pública (suplemento domingo jornal Público). 

Tem feito reportagens em zonas de crise por todo o mundo. Destacou-se com as suas reportagens no Afeganistão, Argélia, Caxemira, China, Tchetchénia, Haiti, Iraque, Sudão, Egipto, Líbia, Kosovo, entre muitos outros países.

Em 2017 recebeu a Bolsa de Exploração Nomad para viajar até à Síria e ao Iraque para documentar os últimos dias do Estado Islâmico. Este trabalho originou reportagens no jornal Expresso e o livro "Uma Casa em Mossul" editado pela Penguin Random House.