Bornéu: Do estranho ao extraordinário

A floresta tropical da ilha do Bornéu é uma Caixa de Pandora, onde a natureza se manifesta das mais diversas formas

Densa, luxuriante, rica. Assim é a floresta do Borneú. Explorá-la é como abrir uma Caixa de Pandora: um constante exercício de novidade, espanto e fascinação.

Nesta ilha trespassada pela linha do Equador - a maior da Ásia e a terceira maior do mundo - a natureza (ainda) abunda. O clima húmido e quente, próprio destas latitudes, torna-se propício à abundância de vegetação e proporciona um ecossistema singular, onde fauna e flora proliferam, relevando o esplendor natural das mais diversas formas, feitos e cores.

A floresta tropical do Bornéu é um verdadeiro tesouro no que toca à biodiversidade. São milhares e milhares de espécies - muitas delas endémicas - que habitam a imensidão verde da selva. Descobri-la é como mergulhar num universo fantástico, saído de um imaginário quase pré-histórico, onde habitam criaturas selvagens e onde a natureza intocada manifesta o seu estado mais puro.

No solo, as raízes formam uma encruzilhada hipnótica que culmina nas copas de frondosas árvores milenares que, do alto da sua pose sobranceira, testemunham a vida lá em baixo - e quanta vida ali se encontra! As plantas, cujas espécies se contam aos milhares, assumem as mais caricatas formas: das mais delicadas, como as camaleónicas orquídeas selvagens, às maliciosas carnívoras, de que a Nepenthes é exemplo.

Insetos, répteis, anfíbios e afins, contam-se às centenas. Diversos, exóticos e intrigantes. São seres quase-extraterrestres de tantos e tão bestiais os feitios que encorporam.

As espécies de mamíferos ultrapassam as 200, e entre elas os morcegos são os mais numerosos. Como é habitual em ambientes tropicais, as várias espécies de morcegos compõem mais de 40% da população de mamíferos. Estes estranhos animais desempenham um importante papel no ecossistema e a sua presença é considerada um indicador de saúde da floresta.

De entre as espécies características desta região contam-se ainda o imponente rinoceronte da Sumatra - a espécie de rinoceronte mais próxima da extinção - ou o caricato elefante pigmeu do Bornéu. Mas é impossível falar da selva tropical da maior ilha da Ásia sem referir o mais icónico primata que ali encontra o seu habitat: o orangotango. Este carismático mamífero deve o seu nome à conjugação de duas palavras malaias que traduzidas significam "pessoa da floresta". É o único grande primata do continente asiático e caracteriza-se pelo pelo castanho avermelhado que lhe cobre o corpo. As numerosas árvores da floresta tropical do Bornéu são a casa desta espécie cuja sobrevivência se encontra ameaçada.

O Coração do Bornéu - uma iniciativa da World Wide Fund for Nature (WWF) - é um acordo de conservação assinado pelos governos do Brunei, da Malásia e da Indonésia, cujo objetivo é proteger a última grande floresta tropical do continente asiático. Além do comprovado valor ecológico desta região, são várias as razões que levam as organizações ambientais a agir em prol da proteção deste território. Travar os perigosos avanços da desflorestação é a missão iminente. 

Factos e números

A área designada por Coração do Bornéu tem uma extensão total de 220 mil quilómetro quadrados. Cerca de 6% da biodiversidade do planeta está ali concentrada. Neste ecossistema singular, com uma idade estimada de 140 milhões de anos, habitam 10 espécies endémicas de primatas, mais de 350 tipos de pássaros, 150 répteis e anfíbios e mais de 10 mil plantas autóctones.

Um paraíso ameaçado

As consequências da desflorestação são alarmantes e os esforços conservacionistas parecem não ser suficientes para travar os avanços deste flagelo.

A indústria madeireira e a exploração das plantações de óleo de palma são os principais agentes da galopante desflorestação que assola a selva tropical do Bornéu desde a década de 60. A par disso, as alterações climáticas e o comércio ilegal de animais selvagens põem em causa a sobrevivência de várias espécies e representam uma real ameaça a este ecossistema.

Ficha Técnica

Edição e Conteúdos Marta Macedo
Fotografia Nelson Paiva