À Volta dos Annapurnas

Uma viagem de bikepacking no coração dos Himalaias.
textos e fotos do líder Nomad: Diogo Tavares

Na sombra dos cumes mais altos do planeta, o líder Nomad Diogo Tavares pedalou durante dez dias e mais de 300 km pelo Circuito dos Annapurnas. Apesar do pedal moribundo que teimava em não colaborar, do corpo dorido a pedir descanso e dos momentos de debate e tréguas com a altitude, foi com uma avassaladora alegria que, no final de cada dia, e a cada nova alvorada, sentiu que estava no lugar certo.

Dia 1 | Kathmandu - Besishahar - Bhulbhule
Com poucas horas de sono e a ansiedade tonta de quem inicia mais uma aventura, acordei desejoso por me pôr à estrada. Sabia que iam ser umas intensas oito horas de autocarro de Kathmandu até Besi Shahar, umas das portas de entrada do circuito, mas tinha a certeza que iriam valer a pena.

Chegado ao destino, comecei a rota em duas rodas. Foram 16 km para aquecer as pernas, contornar poças, gincana com jipes, motas e lama em barda. Passo por várias hidroelétricas, camponeses a voltar para as suas casas ao fim do dia, e sigo o lusco-fusco. As montanhas altas aceleram a escuridão, mas, numa rara aberta do céu, eis que vejo o imponente Himalchuli, uma visão de 7893 metros banhada no dourado do entardecer. Os últimos quilómetros do dia foram de frontal na testa e com uma impressão amarga de que o pedal esquerdo não estava nas melhores condições. Mas o descanso já chamava por mim. Essa preocupação ficaria para amanhã. 

Dia 2 | Bhulbhule - Syange
Tenho 10 dias pela frente para percorrer mais de 200 km num dos mais emblemáticos trilhos do planeta, mas aos 15 km apercebo-me que o meu receio tinha razão de ser. Paro imediatamente para avaliar o estrago e apercebo-me de que o pedal está a abanar. Incrédulo, ponderei nas minhas opções. Teria de voltar para Besishahar para tentar soldar o pedal. Foram quatro horas e 1000 rupias perdidas, e no final não ganhei um pedal novo.

Recomecei com o coração nas mãos. Lembrei-me, subitamente, de alguém que deu a volta ao mundo de monociclo e da aventura “Into the Empty Quarter”, de Alastair Humphreys e Leon McCarron ,com uma espécie de charrua feita numa garagem. Ri-me sozinho e, lentamente, comecei a descontrair. Eu podia ser o primeiro a fazer o Thorung La a mono-pedal. Nas subidas, levo a bicicleta à mão, para poupar o resto de pedal moribundo. Nas descidas, monto a Britango e deixo-me levar ao sabor do vento. Acabei o dia com pouco mais de 24 km, a juntarem-se aos 15 km que andei para trás. Em Syange, uma pequena vila Gurung, dormi profundamente ao som da água que caía de uma cascata monumental mesmo ali ao lado.


Dia 3 | Syange - Koto
Hoje espera-me uma subida de 1500 metros, mal disfarçada por 42 km. O trilho segue o rio Marsyangdi, que sobe e sobe até Dharapani. Esperam-me florestas de pinheiros e abetos dispersos por um terreno a pique, até ao imponente Annapurna II (7937 m). Estou a entrar no coração dos Himalaias.

Dia 4 | Koto - Bhraka
Despeço-me de Koto numa roda de oração. O dia está fresco e favorável para rolar em mono-pedal, partilhando a estrada com jipes, motas, tratores da II Guerra, mulas, camponeses e pó, até à quinta casa, sempre acompanhado pelo rio Marsyangdi. Pouco depois de passar Bhratang, uma pequena vila cheia de histórias, o vale estreito dá lugar ao rochedo de Paungda Danda, que se eleva a mais de 1500 metros acima do trilho. O destino é Bhraka, uma vila pacata antes da movimentada Chame.

Dia 5 | Bhraka - Kicho Tall (4627 m) - Gunsang
Aclimatação. Eis a palavra que me fez levantar bem cedo, deixar a Britango no repouso e subir mais de 1000 metros em altimetria. O Kicho Tal (Ice Lake) era o meu propósito. À chegada, a neve e o frio cortante não me permitiram ter a vista panorâmica que esperava dos Annapurna III, Gangapurna e Singhu Chuli. Mas não pude ficar indiferente à paisagem dramática da montanha e à paz que ela transmite.

Depois do Dal Bhat, despeço-me de Bhraka em direcção a Manang. Ao entardecer, já instalado em Gunsang, avistei um lobo solitário a rondar a vila. Foi um dia farto, em proximidade com as montanhas e contacto com a vida selvagem.

Dia 6 | Gunsang - Phedi
Ao sexto dia ganhei companhia de um americano, um francês e um espanhol. O Ryan rola desde agosto a partir de Hanói pelas estradas perdidas até ao Nepal. O Pierre deixou-se arrastar até ao Nepal através de Sikkim, na Índia. O Cristian saiu de casa, em Cadiz, percorreu a Europa em três meses e já rola pela Ásia há cinco. Quis o destino que nos cruzássemos para lá de Manang a caminho de Thorung. Foi um dia curto em distância, mas a altimetria apertava e foram poucos os quilómetros em cima da bicicleta.

Para dar mais força a esta etapa, enfrentámos o Gangapurna. Empoleirado no alto vale de Manang, no cimo dos 7455 metros, acima do vale varrido pelo vento de Manang e em direção ao extremo norte da cordilheira de Annapurna, esta é uma das montanhas menos escaladas dos Himalaias. Seguem-se algumas pontes suspensas no trilho, as subidas empinam sem dó e o ar acima dos 4000 metros é um desafio para acartar a bela mono-pedal Britango. Contento-me com a paisagem surreal da secção até Thorung Phedi. O vale é estreito e as encostas íngremes pintadas a diferentes tonalidades de amarelos, laranjas e castanhos, avisam-nos da chegada do outono. 

Paro a cada 20 metros de subida, não por exaustão, mas porque a vista obriga à contemplação. Um rebanho de iaques atravessa-se à minha frente e o Annapurna III está já ali. Chegamos a Thorung Phedi com tempo para sentir o sol em cama de rede, enquanto me preparo para o dia de amanhã - o desafio do ano!

Dia 7 | Phedi - Thorong La Pass (5415m) - Ranipauwa
O plano estava traçado. Acordar às seis da manhã e atravessar aquilo que muitos dizem ser a passagem mais alta do mundo - Thorong La Pass. Como em quase tudo, há várias linhas de pensamento. Dungri La Pass, na Índia, no alto dos seus 5608 metros, também reclama o título. Acima dos 5000 metros, havia uma paragem de dois em dois minutos. O terreno difícil era empinado, a bicicleta começou a pesar duas toneladas e o ar deixou de ser facilmente respirável.

Foi complexo, mas ali estava Thorong La Pass! Feliz, deitei-me ao sol e adormeci durante um breve momento. Acordei com a energia restaurada, pronto para voltar ao selim. Foram 12 km numa descida bruta com mais de 1600 metros de desnível até ao maravilhoso mundo novo do Vale do Mustang.

Dia 8 | Muktinath - Marpha
Terra da Sombra, é como chamam a Mustang. Um dos locais mais mágicos por onde alguma vez passei. Neste vale encaixado no rio Kali Gandaki, com planícies seculares varridas por ventos impiedosos, as casas de barro acumulam madeira nos telhados — sinal de riqueza, segundo dizem. Mustang já foi um fundo do mar, tal como todos os picos dos Himalayas. A colisão de placas tectónicas da Euroásia com as indo-australianas faz com que seja possível encontrar, ainda hoje, fósseis de amonita com motivos marítimos. Entretanto, as bandeiras de oração tibetanas contrastam com o gelo de Dhaulagiri, a sétima montanha mais alta do mundo. Tão próxima que quase parece dar para tocar.

Dia 9 | Marpha - Tatopani
Conhecida como a aldeia das maças, chego a Marpha com o plano já traçado: enfrentar as descidas intermináveis no deserto de Mustang até mergulhar na densa floresta do vale de Kali Gandaki, o desfiladeiro mais profundo do mundo. Partilho, sem entusiasmo, uma estrada esburacada e apinhada de calhaus soltos, com jipes, rebanhos de ovelhas, iaques, autocarros ruidosos e motas em barda. O piso seco não ajuda e em menos de um fósforo deixa-nos com uma camada empoeirada na epiderme, que acumula carinhosamente as vivências dos dias anteriores. 

Num instante, as localidades passaram a ser vilas e não aldeias, o transporte agora vê-se a motor e não a mula, mas tudo parece mais desolador e decadente. Estamos a deixar para trás a magia do meio rural, onde os dias passam mais devagar. Com este pensamento, chego a Tatopani.

Dia 10 | Tatopani - Beni - Pokhara
Os gigantes brancos estão lá fora, à espera para me fazerem companhia. Os Nepali, com uma curiosidade genuína, aproximam-se. Querem uma foto comigo, por vezes só com a bicicleta. Fazem perguntas e, mais do que tudo, com poucos gestos e ainda menos palavras, fazem-me sentir bem vindo. Estou no coração dos Himalaias! 

À noite nas margens do Fewa, em Pokhara, bebi a tradicional tumba, bebida alcoólica tradicional à base de millet, e celebrei o privilégio de fazer esta jornada a mono-pedalar em cima da fiável Britango, na sombra dos picos mais altos do planeta Terra. Apesar do corpo dorido, das dores de cabeça nas alturas, das nuvens de poeira, das loucas gincanas com jipes e motas, das saudades, dos incontáveis quilómetros a empurrar a bicicleta, foi com uma alegria avassaladora que terminei cada dia com a certeza de que estava no lugar certo.

Santuário dos Annapurnas

Com Diogo Tavares

“ As paisagens deslumbrantes, a cultura, a genuinidade, a ... ”

Paula P.

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