Balcãs, pelo olhar de Nelson Paiva

Uma entrevista ao líder de viagens Nelson Paiva, sobre os Balcãs e sobre a nova viagem da Nomad na região.

O lançamento da nova viagem da Nomad aos Balcãs serviu de mote para uma conversa entre a Marta Macedo e o Nelson Paiva, o líder responsável por esta viagem. Ao longo da entrevista, são abordados temas como o peso histórico da região, o impacto dos conflitos no seu povo e os ventos de mudança que estão a moldar o futuro dos Balcãs.



Marta: Como explicas, de forma resumida, o contexto histórico que moldou a região dos Balcãs e a transformou naquilo que hoje é?

Nelson: O posicionamento geográfico dos Balcãs teve, ao longo da história, uma força muito grande no jogo de poder. Estão no limite entre o ocidente e o oriente e isso fez com que a região fosse sempre um foco de conflito. O passado mais recente é marcado pelo início da Primeira Guerra Mundial, que aconteceu lá. Foi também uma região afetada pela Segunda Guerra: os nazis ocuparam a Croácia, a Bósnia e a Sérvia e houve bombardeamentos em Belgrado, nessa altura. Já nos anos 90, deu-se o conflito mais evidente e aquele que está mais vivo na memória coletiva, que coincidiu com a dissolução da ex-Jugoslávia. A saída da Bósnia, que provocou o cerco de Sarajevo, foi o episódio mais marcante. Antes do conflito, naquela região não existiam fronteiras. Todos aqueles países viviam sob um domínio geral, como aconteceu com a União Soviética. Todos eram jugoslavos, mas havia nuances que os diferenciavam, sobretudo ligadas à religião. Isso afetou a noção de nacionalidade como aqui a conhecemos - eu sou português porque nasci em Portugal, se tivesse nascido em Espanha, seria espanhol - no caso dos Balcãs, alguém que seja cristão ortodoxo e tenha nascido na Bósnia, é sérvio. No Kosovo, há os albaneses, que são muçulmanos e há os sérvios, que são ortodoxos. Depois, dentro de cada país, existem pólos onde estas comunidades são mais fortes. Estas questões de identidade estão, desde a dissolução da Jugoslávia, na origem de muitas tensões e conflitos. E isso ainda hoje se sente e é muito evidente durante a nossa viagem. Percebemos que há comunidades isoladas, há divisão, há uma dificuldade enorme em trabalharem em conjunto, mesmo que seja para um bem maior, para um sentido de unidade nacional.

Marta: O conflito nos Balcãs marcou a história contemporânea e tu eras jovem na altura dos acontecimentos. Em que medida achas que os media influenciaram a construção do teu imaginário acerca da região?

Nelson: Sem dúvida que os media tiveram influência na minha primeira construção acerca desta região: a ideia da guerra, do cerco à cidade, a imagem dos ataques dos snipers ao Hotel Holiday, em Sarajevo, onde os jornalistas internacionais estavam sediados. Eu era muito jovem, mas lembro-me de ouvir notícias acerca do que estava a acontecer em Sarajevo. Lembro-me de ficar com a ideia de que estava a acontecer uma guerra. Mais tarde, quando comecei a procurar saber mais sobre o que se tinha passado naquela região, é que percebi que não se tratava exatamente de uma guerra, mas sim de uma agressão quase unilateral em que a proporcionalidade da força era muito maior de um lado do que do outro. Tratou-se de uma ação de poder dirigida a comunidades que não tinham como se defender.

Marta: O que é que te atraiu para os Balcãs? O que te fascina nesta região?

Nelson:Sempre me interessei por história, sobretudo história contemporânea, e esta região passou por uma fase difícil: a fase dos conflitos nos anos 90, entre 1992 e 1995. Vivi esta fase durante a adolescência, o que já por si tem uma implicação forte no meu desenvolvimento pessoal. Na altura, ficou a curiosidade por uma região que ainda era remota, fechada num espaço geográfico que era a Jugoslávia, e que tinha um pendor místico e secreto. Posteriormente, fiz algumas amizades com sérvios, bósnios e kosovares, que me falaram das suas vidas durante o conflito e do que era viver em regiões do Kosovo, nos anos 90. Os seus relatos pareciam relatos de Portugal, no início do século XX. Tudo isso foi criando expectativa. Por isso, quando estava a pensar, juntamente com a equipa da Nomad em criar uma viagem com um conceito e uma mensagem fortes, a região dos Balcãs foi evidente e perseguimos esse objetivo.

Marta: Com base nas tuas expectativas e imaginário da região, o que mais te surpreendeu na tua primeira viagem aos Balcãs?

Nelson:O que me mais me surpreendeu foi a mudança que provocou em mim. Durante a viagem, passei por uma viagem pessoal. Eu tinha um conjunto de preconceitos em relação à atuação das partes envolvidas no conflito. Mas, durante a viagem, percebi que, como todas as histórias de guerra, esta não é linear. Não há pretos e brancos, há muitas zonas cinzentas e muitas nuances. As coisas não se dividem entre bons e maus e temos tendência a medir as ações de forma isolada quando há um contexto e um conjunto de circunstâncias que as desencadeiam. Essa constatação e a desconstrução das ideias pré-concebidas que levava na bagagem, foram a grande viagem desta viagem.

Marta: Todas as nossas viagens são desenhadas com base num conceito. Esta, assenta na ideia de transformação pós-conflito. Como é que isto se materializa na experiência da viagem?

Nelson: Viajar com Nomad, em comparação com uma viagem feita a título individual ou mesmo com outra agência, expõe-nos a experiências que de outra forma dificilmente teríamos. No caso particular dos Balcãs, eu acredito muito na força que a narrativa desta viagem pode ter, do ponto de vista pessoal. Ao longo dos dez dias de viagem, estamos expostos a histórias do período da guerra, contadas na primeira pessoa ou por mesmo por mim, que as fui ouvindo e registando durante a viagem de prospeção e através dos laços que fui criando com pessoas naturais da região. E confrontar essas experiências de vivência no terreno com a construção pré-viagem, através da narrativa da Nomad, gera uma transformação pessoal. Esta viagem proporciona-nos uma aproximação muito grande a estas realidades, permite-nos conhecer as histórias a partir de dentro e não de uma forma superficial, como às vezes acontece quando viajamos.

Marta: Que impacto teve o conceito nas decisões do itinerário da viagem?

Nelson: Ao pensar a viagem, quisemos não só mostrar as evidências do conflito dos anos 90 mas também explorar um passado mais longínquo, que reflete a antiguidade da região. Por isso é que decidimos começar a viagem em Belgrado — a capital que melhor manifesta este legado mais antigo, graças à presença de diferentes impérios, mas sobretudo do Romano — e terminar em Pristina, que é a capital mais jovem da Europa. Este início e este fim pautaram as decisões que ficaram pelo meio. Depois, foi encontrar uma narrativa que fosse passando pelos diferentes momentos da História e que no final conduzisse a uma conclusão geral, que vai pertencer a cada viajante, acerca da identidade atual da região e do porquê das coisas terem acontecido da forma que aconteceram.

Marta: Ao longo da viagem, que evidências encontramos dos episódios que marcaram a história da região e de que formas é que isso se manifesta?

Nelson: Ao longo da viagem, vamos tendo algumas evidências do conflito, desde nuances ligeiras a cicatrizes visíveis. Sarajevo é a cidade onde essas marcas são mais profundas e também mais assumidas. A cidade não quer mascarar o que aconteceu, pelo contrário, querem dar evidência a isso. Não para que sirva de motor para o futuro mas para que o passado nunca seja esquecido, para que essa mensagem se mantenha presente e para honrar aquilo que aconteceu. A cidade foi, de facto, muito resiliente durante o Cerco de Sarajevo.

Depois, há também momentos mais ligeiros, que nos obrigam a ler os sinais do conflito nas entrelinhas. Isso acontece no Kosovo. Ali não vamos encontrar edifícios destruídos e fora alguns memoriais às vítimas da guerra, não há muitas mais referências aos conflitos dos anos 90. O que ali se nota é um passo largo na direção da Europa. Em Pristina isso é especialmente evidente. É uma cidade cosmopolita, que se aproxima do Porto, de Lisboa, ou de outras cidades europeias e tendo em conta o que era o Kosovo antes do conflito e o que é Pristina atualmente, a diferença é abismal.

Marta: Nestes países que, na história recente, estiveram fechados para o mundo, como sentiste a receptividade em relação a viajantes estrangeiros?

Nelson: É interessante como se percebe muito o impacto do passado nos dias de hoje. Não quero generalizar, até porque em todos os lugares que visitei tive pessoas a receberem-me muito bem, mas, enquanto Belgrado é uma cidade muito cosmopolita, semelhante a outras cidades europeias como Viena ou Budapeste, em Sarajevo já notei que persiste algo de “negro” dentro das pessoas. Conheci pessoas muito simpáticas, que me receberam de sorriso aberto, mas notei que o peso da história lhes moldava o espectro emocional. Notei uma melancolia, uma mágoa maior. Já no Kosovo, há uma abertura muito maior, apesar de terem estado fechados durante muito tempo. Acho que os kosovares são os que mais se aproximam dos portugueses: mais calorosos e muito hospitaleiros.

Marta: Conta-nos um episódio que tenha marcado a tua primeira viagem aos Balcãs.

Nelson: Houve um momento que me esmagou, do ponto de vista emocional. Durante a viagem conheci a Armina, uma natural de Sarajevo que era criança durante a ocupação. Nesse período, um dos primeiros alvos dos sérvios foi a biblioteca nacional - um edifício incrível, hoje recuperado e transformado em museu - e todo o acervo literário que havia em Sarajevo foi queimado. Em conversa, a Armina, contou-me que um dia, durante o cerco, veio à varanda e pareceu-lhe que estava a nevar. Comentou com a mãe, que lhe disse que a “neve” eram na verdade cinzas, dos livros que estavam a ser queimados na biblioteca nacional. Ao olhar novamente, viu pequenos pedaços de páginas de livros que caiam por toda a cidade. Este relato, contado na primeira pessoa, teve um impacto enorme e foi sem dúvida um dos momentos mais marcantes da minha viagem.

Marta: Porquê viajar com a Nomad para os Balcãs?

Nelson: A região dos Balcãs merece toda a nossa atenção. É uma região pouco explorada e com uma riqueza e património histórico incríveis. As viagens da Nomad são sempre pensadas como uma narrativa e não só como um conjunto de visitas a diferentes locais. É isso que as distingue. Nesta viagem, esta noção está particularmente presente: acho que as pessoas vão encontrar vários pontos de contacto, vários momentos que as convidam a refletir e no final, toda a experiência faz sentido. Tenho a certeza que será uma experiência inesquecível.

Marta: O que é que alguém que tenha interesse por esta região e pela história que lhe está associada não pode deixar de ler, ver ou ouvir?

Nelson: Há muita informação relativamente àquilo que foi o conflito dos Balcãs. Há vários documentários disponíveis na internet que ilustram bem os acontecimentos que marcaram a região. A BBC, por exemplo, tem uma série interessante, dividida em 5 episódios, que conta muito bem esta história. No entanto, se quisermos olhar a região de outro prisma, recomendaria necessariamente o livro do prémio Nobel, Ivo Andric, “A Ponte sobre o Rio Drina”, que se passa numa cidade que visitamos na nossa viagem: Visegrad, a norte da Bósnia, na fronteira com a Sérvia. No que toca a cinema, diria que é obrigatório ver o “Underground”, do Emir Kusturica. É um filme caótico mas que espelha bem a Sérvia ligada à vertente cigana e nómada do país e trata vários momentos históricos: o fim da Segunda Guerra, a Guerra Fria e a dissolução da Jugoslávia.

Ficha Técnica

Entrevista e Edição Marta Macedo
Fotos Nelson Paiva